As Neves de Campos do Jordão e da Serra da Mantiqueira

 

Neve em Campos do Jordão - julho/1928 Foto:http://www.camposdojordaocultura.com.br/ Edmundo Ferreira da Rocha
Neve em Campos do Jordão – julho/1928

Tente fazer uma viagem no tempo, voltando ao passado. Imagine-se numa bela paisagem entre vales e montanhas, mas sob um frio cortante; imagine-se tentanto se aquecer junto a um velho e aconchegante fogão à lenha enquanto lá fora, pequenos flocos de neve caem silenciosos sobre os telhados e as copas das árvores. Agora imagine que essas árvores sejam araucárias e esses vales e montanhas sejam em Campos do Jordão, seria um sonho para todo turista jordanense, não é?! Pois que esta cena realmente aconteceu, mas no longínquo ano de 1928, mais precisamente em 31 de julho daquele ano. A neve veio forte e intensa naquele dia, e começou a cair por volta das 2h da madrugada, extendendo-se sem parar até às 10h da manhã, acumulando 20 cm de espessura e se tornando a mais intensa nevada ocorrida na cidade. Junto com aquele frio todo vieram alguns percalços provocados pelo excesso de congelamento que provocaram o estouro dos canos d´água, fazendo com que as torneiras se negassem a fornecer água. Os galhos das árvores arqueados pelo peso da neve que se quebravam aqui e ali. A cena foi presenciada por pouco mais de uns 5000 moradores que habitavam a cidade, que mais parecia uma vila naquela época.

Neve em Campos do Jordão - julho/1928 Foto: www.camposdojordaocultura.com.br
Neve em Campos do Jordão – julho/1928

Mas para nossa sorte aquele dia ficou eternizado em fotos, que hoje podem ser encontradas nas páginas do livro “História de Campos do Jordão”, do historiador e advogado Dr. Pedro Paulo Filho, que além das fotos coleciona alguns interessantes relatos dos antigos moradores que presenciaram e testemunharam todo o esplendor branco que cobriu a cidade. Fotos também podem ser vistas no site www.camposdojordaocultura.com.br  que pertence ao também historiador jordanense Raimundo F. da Rocha.

Mas aquela não fora a primeira nevada ocorrida na região, segundo relatos, entre 1892 e 1896 ocorreram outras duas nevadas, mas todas de pouca intensidade. Outra nevada que proporcionou um charme todo especial a cidade, ocorreu em 11 de junho de 1947, quando nevou por 3 horas consecutivas. A neve voltou a encantar os moradores e turistas na noite de 27 de julho de 1964, quando nevou em Campos do Jordão durante uma hora. Naquela noite havia tanto gelo na atmosfera, que a ponte aérea Rio – São Paulo teve que ser fechada, pois o acúmulo de gelo nos aviões fazia com que esta rota torna-se demasiadamente perigosa para a segurança dos vôos. O frio era muito intenso e provavelmente neste dia foi registrada uma das menores temperaturas já registradas na cidade, -8.0ºC. E desde este ano de 1964, infelizmente, não mais ocorreram precipitações de neve no município, mas ocorreram em outras regiões da Mantiqueira.

O registro de neve na Serra da Mantiqueira não é uma exclusividade jordanense, já ocorreram precipitações em Monte Verde, Pedralva e Camanducaia, todas no sul de Minas. No Maciço de Itatiaia no Rio de Janeiro, o fênomeno ainda se apresenta em média uma vez a cada três anos. A nevada ocorrida no alto do Itatiaia em 12 de junho de 1985 foi tão intensa e espetacular, que da rodovia Pres. Dutra, na altura de Resende-RJ, foi possível avistar os cumes das montanhas brancos e com um intenso brilho provocado pela neve, que teimou em permanecer nos picos por quatro dias, apesar do sol.

Neve no Pq. Nac. do Itatiaia/RJ em 1985
Neve no Pq. Nac. do Itatiaia/RJ em 1985

Na Mantiqueira e no sul do Brasil, a neve segue a linha das araucárias, ou seja, onde há esta árvore, significa que, teoricamente, há possibilidade de queda de neve, mas em geral, nos estados da região sudeste o fenômeno sempre ocorrerá acima dos 1500 metros de altitude.

Formação da neve

A neve é um fenômeno meteorológico que ocorre a partir do vapor de água existente dentro das nuvens. Se estiver frio o bastante, este vapor não se condensará em gotículas de água, mas sim como pequeninos cristais de gelo, ocorrendo a sublimação. À medida que o cristal de neve move-se pela nuvem, mais partículas de água e neve vão se agregando ao cristal. O acúmulo de cristais individuais forma o floco de neve. À medida que vai ficando mais pesado, o floco de neve cai em direção a terra. Se a temperatura em todo o percurso até o chão estiver fria o suficiente, o floco ainda estará congelado quando chegar ao solo.

A grande dificuldade para a ocorrência da neve na Serra da Mantiqueira reside do fato de ela estar em latitudes tropicais, o que acasiona um regime de chuvas que tende a se concentrar durante o verão. A redução na média pluviométrica durante o inverno registrada em Campos do Jordão, não ocorre nas serras gaúchas e catarinenses, que tem neve em praticamente todos os anos.

Aumento das temperaturas

O clima de Campos do Jordão já não é mais o mesmo e está bem mais quente que no passado.

Estudos dizem que nos dias atuais, as temperaturas médias durante o inverno, estão pelo menos 1.7ºC mais altas que as temperaturas do início do século XX, e para este mesmo período, hoje chove pelo menos 33 mm a menos do que naquela época. Antigamente, em dias frios com formação de geada, havia formações de grossas placas de gelo nas poças d´água, onde o gelo se mantinha, em alguns casos, até ao meio dia. No belíssimo livro de Balthazar de Godoy Moreira, entitulado “E os Campos do Jordão foram Pindamonhangaba”, há um comentário sobre o frio de antigamente, numa passagem o autor descreve: “Em 1916, na Guarda (hoje Horto Florestal), fazíamos sorvete às 03 horas da tarde com o gelo que colhíamos de manhã, nas poças d´água ou bacias que deixávamos cheias ao relento…”. Hoje em dia até a geada está escassa e visivelmente mais fraca, formando um gelinho aqui outro ali e que mal dura até às 09h da manhã.

Geada registrada no Horto Florestal de Campos do Jordão no dia 04/jun/2009
Geada registrada no Horto Florestal de
Campos do Jordão no dia 04/jun/2009

Campos está hoje com um clima mais amenos devido ao aumento das temperaturas dos últimos anos, aumento da malha urbana, diminuição da área florestal com a derrubada das matas nativas etc. Com isso, o fenômeno da neve, definitivamente deixou de existir na cidade. Mesmo entre os moradores da cidade existe o consenso de que o clima da cidade mudou muito. E de pensar que em 1951, Campos do Jordão já chegou a ter mais de 20 mil pés de maçã, hoje o clima já está muito quente para este tipo de cultura, hoje já é até possível encontrar pés de abacate e limoeiros na cidade, árvores típicas de climas bem mais quentes que Campos. Até as geadas, que no passado, ocorriam em média 46 dias por ano, hoje estão cada vez mais escassas.

Mas será que um dia a neve voltará a brindar os turistas? O que era raro tornou-se improvável, a menos que uma situação excepcional de frio e umidade ocorra em um episódio isolado de uma intensa frente fria sobre a Mantiqueira. E se a combinação de umidade, precipitação e frio com temperaturas abaixo de zero grau estiver presente, com certeza o branco da neve estará de volta. E se este dia ocorrer, os telhados inclinados já estarão prontos para recebê-la, as lareiras já estarão aquecidas e o espectadores do show da natureza a receberão com muitas fotos e boas lembranças da neve sobre a cidade.

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Autor: Marcelo Romão é especialista em Meteorologia

email: marcromao@hotmail.com

Bibliografia:

– Historia de Campos do Jordão, Pedro Paulo Filho, 1986

– A Neve no Brasil, Rodolfo Souza, dissertação de mestrado – FFLCH – USP

– Revista Aero Magazine, Rubens J. Villela, artigo sobre formação de gelo em aeronaves

– Estórias e Lendas do Povo de Campos do Jordão, Pedro Paulo Filho, 1988

– “E os Campos do Jordão foram Pindamonhangaba” – Balthazar de Godoy Moreira

http://rtr.110mb.com/pg/diversos/diversos.html  (foto neve Itatiaia)

– Crédito das fotos da nevada de 1928 em Campos do Jordão:

Edmundo Ferreira da Rocha (http://www.camposdojordaocultura.com.br/)

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